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sábado, 14 de julho de 2012

Metade de mim


Duas metades, cara-metade, a outra metade...
A gente cresce ouvindo que nasceu faltando, que sozinho não se basta, que demanda complemento, assim bem transitivo. Aí a gente sai pra procurar quem nos complete, quem traga a metade que falta, quem preencha as lacunas.
Eu fui assim. Procurei uma pessoa sensata, doce, calma, amorosa, delicada e pé no chão pra me trazer tudo que me faltava. Achei. Pelo menos um punhado de vezes. Amei, fui lá, jurei pra sempre, tive certeza. E arrastei o cu em caco de vidro (expressão máxima da senhora minha madrasta) mais um punhado de vezes.
Aí fui me ocupar de mim. Mas pela força do destino, que me mandou pra longe das minhas referências e certezas do que por vontade. Comecei a me enxergar de perto, sem espelho, quase que pelo tato mesmo. E fui me fazendo mais serena, mais doce, menos nervosa (calma já era demais)... E aconteceu de conhecer alguém que me sobra. Que me acrescenta. Que não mudou a minha vida. Que não me salvou.
Uma pessoa que fez com que eu quisesse ser uma pessoa melhor. Que faz com que eu tente todo dia ser o melhor que eu posso ser, dentro de tudo aquilo que eu já era. Porque se tem uma coisa que o meu marido me ensinou é que pra feliz, pra se sentir realizado, não basta ter alguém do lado. Tem que estar bem com quem a gente carrega dentro. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Eu ninho, tu ninhas, nós bagunçamos


Mulheres grávidas sentem uma vontade irresistível, normalmente no fim da gravidez, de redecorarem suas casas, mudando a disposição dos móveis, acrescentando ou removendo objetos. Chama-se esse fenômeno de “construção do ninho”.  Pais de filhos adultos, ao verem suas crias se mudando pra vida, adquirindo independência financeira e imobiliária sentem a chamada síndrome do “ninho vazio”, sofrendo com a falta física e emocional dos rebentos.
Ao adquirir um apartamento novo, um espaço próprio, o novo morador esforça-se para imprimir sua identidade em cada pedaço, seja essa impressão presencial (dançar pelado na sala), seja rebelde (servir coca-cola com a porta da geladeira aberta e jantar Passatempo) ou até mesmo física, através de obras e decoração. Cria-se um ninho, uma incubadora segura para aquela pessoa que aspiramos nos tornar, ou que esperamos que as pessoas acreditem que somos.
Mas existe ainda outro grupo de novos moradores, os recém-casados (juntados, namorados, enrolados, acrobáticos, etc...). Nesse caso, o ninho tem dois donos. Duas vontades, duas criações, dois canais preferidos, duas coleções de objetos que podem (ou não) combinar entre si e conviver em harmonia.
Esse é o meu caso. Quando eu resolvi morar com o meu namorido (soon to be marido de verdade) eu tinha uma visão de como seria a minha casinha, aquela em que as contas viriam com o meu nome e a geladeira teria os meus yakultis. Mas aí vieram as contas de verdade, sim tinham o meu nome, mas isso não as fazia mais fáceis de lidar e os meus yakultis continuaram a desaparecer misteriosamente. No meu conto de housewife acaba açúcar domingo de noite, leite quando eu já tinha começado o bolo e o salário no meio do mês. Existem meias na mesa da sala, produtos de limpeza produzidos com azeite e vinagre (ainda bem que texto não tem cheiro, afe) e TODAS as formas de gelo vivem vazias.
Faz parte, as pessoas não são iguais (graças aos deuses), os sonhos não são pecinhas de quebra-cabeça que um dia se encaixam soltando fogos em forma de corações de glitter. A gente vai dialogando, gritando, ameaçando de morte, se resolvendo, chorando, rindo e aprendendo. Cada dia um cadinho mais.
Até que um dia, não mais que de repente, por uma conversão dos astros digna de Susan Miller, descubro-me dormindo em casa uma noite sozinha. Pra ser mais exata, uma tarde seguida de uma noite e mais metade de um dia. Fico meio apreensiva (meu namorido é gringo, não tá lá muito acostumado a andar sozinho, mas a família, essa querida, tá aí pra isso e todo mundo deu um help) mas meio eufórica, tudoassimaomesmotempo.
Vou dançar Spice Girls, comer brigadeiro, trabalhar a noite inteira sem culpa (é, sou dessas), ver todos os Law and Order, dormir de meia pra hidratar o pé. Quase sinto a cabeça girar de emoção. Mas né, fica de noite, não tem maratona de Law and Order, acabou o leite condensado, a NET, esse pilar de consideração com o cliente e sinônimo da qualidade no atendimento, cortou a minha internet, a sala faz uns barulhos sinistros.
Mas como todo conto de fadas tem fada-madrinha minha mãe traz Mc Donald’s, manda mensagem, oferece colo. Mas eu sou forte, cheia de coragem e fico de guarda na residência. Mas só consigo ocupar o meu lado da cama...